Nas últimas semanas, após o lançamento da série Adolescência pela Netflix — que bateu recordes com 100 milhões de visualizações —, muito tem se falado e publicado sobre a machosfera ou manosfera.
➕ Marion Kaplan: Todo dia é Dia Internacional de Combate ao Racismo
Evidentemente, o imenso alcance da série deve-se ao retrato de uma questão sensível da sociedade atual.
Pode parecer paradoxal, mas o advento das redes sociais, ao mesmo tempo que democratizou o acesso à informação e deu voz aos/às silenciados/as, também permitiu o alastramento de discursos de ódio e fake news.
Prós
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Se, por um lado, a sociedade evoluiu em muitos aspectos pós-Movimento #MeToo, por outro, viu-se inundada por manifestações masculinistas, nas quais mulheres são constantemente desvalorizadas e os homens se apresentam como “vítimas” de injustiças reiteradas.
Até então, essa machosfera era considerada por muitos como algo marginal, composta apenas por grupos radicais, polêmicos e excêntricos.
Eis o grande mérito do seriado: ele traz para dentro de nossos lares um problema que precisamos enfrentar coletivamente. Afinal, como e por que um jovem de 13 anos, de família comum, mata uma colega de escola?
Aos poucos, a série desvenda o cotidiano do rapaz, mergulhando-nos em um mundo de emojis e termos como redpill, incel e 80/20 — desconhecidos pela maioria dos adultos, mas frequentes no universo adolescente.
Não por acaso, muitos são atraídos pelo discurso masculinista, que oferece sensação de pertencimento e uma resposta ao mal-estar da puberdade. Meninas e mulheres passam a ser responsabilizadas por todos os problemas e dificuldades de adaptação. Elas precisariam ser “enquadradas” e submeter-se à soberania masculina.
Obviamente, trata-se de uma reação ao feminismo, visto como o grande culpado pelo mal-estar dos homens, que se consideram vítimas do empoderamento feminino.
É por isso que Keir Starmer, primeiro-ministro do Reino Unido, apoiou a exibição de Adolescência em escolas e no Parlamento. A sociedade como um todo está sendo posta em xeque. Diálogo, reflexão e campanhas de conscientização são as armas para combater os discursos da manosfera — nas redes, nas escolas, com a participação de instituições e agentes de transformação.
Clubes de futebol são fundamentais nessa missão, devido ao seu protagonismo social.
Em um momento em que o Flamengo debate a inclusão de emendas em seu Estatuto contra discriminação racial e de gênero — promovendo políticas de inclusão por uma sociedade mais justa e diversa —, temos a oportunidade única de usar as redes sociais para combater a linguagem masculinista.
Lembremos que o Flamengo tem a maior torcida do Brasil, incluindo o maior número de jovens entre 7 e 15 anos. Quase 30% dos torcedores do país são flamenguistas.
Nosso tamanho e protagonismo nos conferem alcance inigualável nas redes. É orgulho, honra… e grande responsabilidade. Estamos imersos nos dilemas da coletividade e podemos — devemos — ajudar. Toda ação nossa impacta, toda mensagem se propaga, toda decisão inspira.
Se não podemos ser a solução para todos os problemas da sociedade, que sejamos o reflexo do que ela tem de melhor.
Marion Konczyk Kaplan é conselheira do Clube de Regatas do Flamengo e presidente da Bancada Feminina do Conselho Deliberativo. Mestre em História pela Sorbonne Paris. Siga: @marionk72
Publicado em fla.mundobola.com/