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Na segunda era de ouro do Flamengo, a saudade de meu pai

Torcida do Flamengo em Guayaquil, na final da Libertadores 2022 – Foto: Divulgação

BLOG DO RENATO MAURÍCIO PRADO: Quando eu era garoto, entre os anos 60 e 70, não era fácil ser Flamengo. Levado por meu pai, fui muitas vezes ao Maracanã e voltei de cabeça inchada, numa época em que Botafogo (acima de todos), Fluminense e até o Bangu tinham times tecnicamente muito mais fortes que o rubro-negro. Era uma lambada atrás da outra.

Meu “velho”, rubro-negro dos tempos de Zizinho, Valido e outros cracaços da época dos dois primeiros tricampeonatos (42/43/44 e 53/54/55), vociferava, enfurecido, nas nossas tradicionalmente macambúzias voltas do estádio: “Nos meus tempos, meu filho, o Flamengo tinha onze dovais”. Sim, o argentino Narciso Horácio Doval era o único que ele considerava digno de envergar o “manto sagrado”. E, em minha inocência infantil, eu me pegava imaginando como deveria ser fantástica uma equipe com onze dovais!

O tempo passou e, já como jornalista, acabei presenciando o terceiro tricampeonato rubro-negro (78/79/79 – houve um segundo estadual nesse ano), e o prenúncio de uma nova era de glórias. Que após o primeiro titulo brasileiro, em 80, ganhou, em 1981, o Estadual, a Libertadores, devolveu os 6 a 0 ao Botafogo (somente quem é rubro-negro sabe quanto valeu isso) e conquistou o Mundo, com um baile de 3 a 0 sobre o Liverpool, em Tóquio, me fazendo ligar, emocionado, do outro lado do mundo, para lhe dizer: “Esta aí, pai, um time melhor que o tal dos onze dovais”.

E era. E ganhou mais dois Brasileiros. E fez a maior torcida do país viver anos inesquecíveis. Como agora. A diferença é que nos dias de hoje não tenho mais meu maior amigo, ídolo, herói e exemplo para vibrar comigo e comentar os jogos e as conquistas rubro-negras. Pensei tanto nele, após a vitória sobre o Athletico Paranaense, em Guayaquil!

Foi uma grande exibição? Longe disso. Mas, como costumam dizer os boleiros, “final não se joga, se ganha”. E o Flamengo ganhou. Mais uma. Em 2022 é, indiscutivelmente, a mais bem-sucedida equipe do continente, com as taças da Copa do Brasil e a Libertadores (dois dos três troféus mais importantes do futebol tupiniquim).

De 2019 para cá, esse grupo já abiscoitou dois Brasileiros, duas Libertadores, uma Copa do Brasil, três Estaduais, uma Recopa Sul-Americana e duas Supercopas do Brasil. Uma coleção extraordinária. Capaz de já rivalizar com os anos dourados de Zico e Cia. (quando, também em quatro anos, foram levantados três Brasileiros, uma Libertadores, um Estadual e um Mundial – àquela época não havia Recopa Sul-Americana, Supercopa do Brasil ou Copa do Brasil.

O que falta? O Mundial Interclubes. Após perder, na prorrogação, do quase imbatível Liverpool de Jürgen Klopp, em 2019, Gabigol, Arrascaeta, Éverton Ribeiro etc., terão nova oportunidade, agora diante do Real Madrid de Benzema e… Vinícius Jr.

Os europeus, claro, são novamente franco favoritos. Mas, ainda que o time de Dorival Júnior jogue menos bola que o de Jorge Jesus, a façanha me parece mais palatável. Se acontecerá, é outra história. Mas caso o título intercontinental venha, colocará a equipe atual num patamar de conquistas superior até a dos anos 80 – três Brasileiros e uma Libertadores versus dois Brasileiros e duas Libertadores.

Haja o que houver, me sinto um privilegiado por ter vivido as duas eras mais gloriosas do clube Mais Querido do Brasil. Só lamento o “velho” não estar mais aqui (partiu em 1992) para curtir e conversar comigo sobre essa nova equipe de “onze dovais”. Mas, lá de cima, aposto, ele está vibrando tanto quanto qualquer rubro-negro.