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Por poderio econômico, Fla se torna vilão no futebol brasileiro

Torcida do Flamengo com bandeira – Foto: Staff Images

O GLOBO: Por Rodrigo Capelo

O futebol brasileiro se gabava da alcunha de mais equilibrado do mundo. “Quantos campeonatos nacionais começam com dez ou doze postulantes ao título?”, diziam. Pois não há muito mais razões para sustentar a ideia. O Flamengo venceu a Copa do Brasil e disputa a final da Libertadores. O Palmeiras praticamente já levou o Campeonato Brasileiro. Esses clubes revezam títulos faz cinco anos, e não há nada que indique que perderão competitividade.

Quando o Corinthians chega à final da Copa do Brasil, joga como desafiante de improvável sucesso. Ao perder, dá-se por satisfeito ao ter levado a partida para os pênaltis, gritado alto no Maracanã, o que sobra a quem não esteve em igualdade no aspecto esportivo. Desbalanço que não condiz com o tamanho e as características socioeconômicas de sua torcida. Do outro lado, flamenguistas estavam obviamente felizes, mas não eufóricos. Foi só mais um título.

Mesmo na final da Libertadores, a trama é diferente da que teria ocorrido em passado recente. O Athletico-PR não terá a torcida de adversários apenas porque enfrenta o Flamengo — amado pelos seus e detestado pelos outros em âmbito regional. Pelo retrospecto esportivo e pelo poderio econômico, o Flamengo virou o vilão do futebol nacional, aquele a ser batido, como se tornaram o Bayern na Alemanha ou Real Madrid e Barcelona na Espanha.

Fomos levados por românticos e poetas a crer que o futebol é cíclico. Que pode até haver o domínio de tal clube hoje, mas que logo outro ocupará seu lugar, desde que tenha um técnico inspirado e combine veteranos e talentos da base, de preferência com algum mecenas para pagar a conta. Aquilo que se convencionou no meio esportivo chamar de “projeto”.

Na verdade, o Brasil passa tardiamente por fenômeno percebido nas grandes ligas europeias durante os últimos 20 anos: concentração de riquezas. Clubes com torcidas maiores têm mais facilidade para entrar no seguinte ciclo virtuoso. Mais torcedores geram mais dinheiro, que possibilitam investimentos e gastos mais altos no futebol, que aumentam a probabilidade de vitória, que em algum momento ajudará a formar novos torcedores. Foi assim lá. É assim aqui.

Ainda há quem ache que essa concentração se explique por simplificações da realidade. Não, o Palmeiras não é dependente do dinheiro de sua patrocinadora. Não, o sucesso do Flamengo não depende de patrocínio estatal. Não, as cotas de TV do Brasileirão não determinam quem vencerá . É verdade que deveríamos rediscutir os direitos de transmissão, a liga de clubes e até o papel do Estado, mas nada disso resolve, sozinho, o problema da desigualdade.

Esses clubes dominaram o futebol nacional porque, após reestruturações administrativas e financeiras, cresceram muito mais do que os outros em todas as linhas de receita. Estádio, comercial, transmissão, inclusive nas desequilibradas premiações dos torneios em mata-mata. Mesmo com decisões equivocadas e o populismo de dirigentes amadores, entra tanto dinheiro a mais no caixa que o favoritismo se impõe. Fora as trapalhadas dos cartolas de outros clubes.

O dinheiro das SAFs pode até resgatar algumas instituições, mas não é suficiente para reequilibrar o jogo. Cedo ou tarde, o futebol brasileiro precisará discutir reformas — fair play financeiro, expansão internacional, calendário — , a fim de estimular boas gestões e atrair novos investimentos. Caso contrário, restará a resignação e o conto da carochinha do futebol cíclico.