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Flamengo seguirá sem fidelizar sócio-torcedor mais assíduo

Sócio-Torcedores do Flamengo – Foto: Paula Reis

O GLOBO: Por Diogo Dantas; João Pedro Fonseca

O ano de 2022 reservou ao Flamengo o maior número de finais desde que o clube se colocou como concorrente aos principais títulos no Brasil e na América do Sul, em 2019. Mas presenciar esses momentos de perto, sobretudo no Maracanã, tornou-se uma experiência para poucos rubro-negros. Apesar de atualmente haver cerca de 115 mil sócios-torcedores, o estádio tem capacidade para menos de 70 mil pagantes, e os cerca de 30 mil sócios que compram o pacote mais caro têm tido prioridade — fato que se confirmará na final da Copa do Brasil nesta quarta-feira, contra o Corinthians, e nas próximas decisões.

Em função da alta demanda por ingressos em jogos de mata-mata, o clube fez ajustes no programa Nação, em junho. Criou novas categorias e limitou o acesso ao estádio aos que pagam pelos planos mais nobres, com direito a convidados, numa lógica que valoriza quem tem dinheiro para bancar a fidelidade ao longo do ano sem saber o que o time irá disputar no fim dele. Para os que não podem desembolsar tais quantias, restam os jogos de menor apelo, uma fatia cada vez menor do calendário, uma vez que o rubro-negro tem competido em várias frentes e a torcida ampliado suas médias de público em todas elas, como se vê neste Brasileirão.

A polêmica mais recente tem como fagulha a implementação de até três convidados no plano Diamante, o mais caro do ST, que custa R$ 321, mais R$ 35 por cada dependente. Torcedores de pacotes inferiores se queixam de que o modelo estimula o cambismo e permite que os convidados pelo titular do plano “entrem pela janela”, ou seja, paguem um valor mais barato que o menor plano, hoje ao custo de R$ 43 e com prioridade um.

Há outra sutileza: os planos de quem manteve a adesão na pandemia têm a prioridade equivalente ao superior imediato. Ou seja, o ST Ouro que não abandonou o programa durante a crise da Covid tem status de Platina, o que também causa certo ruído, especialmente no que diz respeito aos horários de abertura das vendas, que respeitam a hierarquia.

Apesar dos protestos, o Flamengo não perdeu sócios em nenhuma faixa, apenas cresceu do meio do ano para cá. Como a carência termina em junho de 2023, novas alterações estão em análise, com possibilidade de reajustes e mais benefícios. Também será preciso tempo para entender se torcedores frustrados por não conseguirem ingressos para as decisões cancelarão suas assinaturas assim que a carência também se encerrar.

Segundo O GLOBO apurou, hoje o clube não transforma os convidados em dependentes com o cadastro nominal pois é obrigado a colocar ingressos físicos em jogos de maior risco, por orientação da Polícia Militar. E a fiscalização nas barreiras e roletas não permite checar quem comprou o bilhete de papel e se o dependente repassou a entrada para outra pessoa. Por isso, fica a critério do titular incluir os convidados que quiser, independentemente do vínculo.

No entendimento do Flamengo, o sócio que paga o Diamante deve ser recompensado por ter feito o investimento de risco por um ano. O clube alega, então, que tenta proporcionar outras experiências aos demais sócios, já que o Maracanã não comporta todos eles.

O critério usado pelo rival do rubro-negro é um pouco diferente. Embora o Corinthians também aposte na lealdade, o Fiel Torcedor privilegia a frequência com que os adeptos assistem às partidas em Itaquera. Quem vai a jogos soma pontos que conferem status para a aquisição dos bilhetes seguintes. Mesmo que parte da margem de lucro seja sacrificada. Lá, também há dependentes, mas eles só podem ser pai, mãe, cônjuge ou filho de até 25 anos.

— A maior percepção de valor que o clube tem é quando consegue ser inclusivo, atender a um senso de pertencimento. É importante para nós que torcedores de várias faixas salariais possam vir à Neo Química Arena — justifica José Colagrossi, superintendente de Marketing, Comunicação e Inovação do Corinthians. — Este é um equilíbrio entre receita e história que procuramos manter, com sensibilidade e responsabilidade.

Os corintianos têm ainda a possibilidade de adesão ao plano Minha Cadeira, que reserva assentos e ingressos para todos os jogos da equipe masculina na temporada. O clube não divulga quantos sócios há nessa categoria, mas alega que eles ajudam a subsidiar os ingressos populares praticados em outros setores. Combater o cambismo também é um desafio, e recentemente 400 contas de STs foram canceladas por comportamento suspeito.

Também há pouco, o clube conduziu um estudo com membros e ex-membros do Fiel para identificar problemas e desejos. Segundo Colagrossi, a meta para 2023 é “oferecer mais segurança e diversificar a experiência”.

Outros benefícios
No caso do Flamengo, faz falta um estádio para chamar de seu. O perfil do Maracanã, cuja manutenção é cara, e a permissão de uso temporária, influenciam na estratégia de maximizar lucros. Uma obra para a criação de um novo setor popular está no radar, mas apenas em caso de concessão a longo prazo. O mesmo vale para o projeto de uma arena própria. Atualmente, todos no clube reconhecem que o plano de sócio é caro, com sua menor categoria a preço superior a uma assinatura de streaming, por exemplo. Por isso, o foco é estender os benefícios que vão além dos jogos, como a FlaTV, os fan token e outros.

O clube entende que, se depender de quem vai ao estádio, não conseguirá crescer mais o sócio-torcedor. Na linha do orçamento ao lado da bilheteria, a previsão é de arrecadação superior a R$ 100 milhões, o que faz da receita uma das maiores do clube e importante sobretudo para que se tenha uma reserva no começo da temporada para o fluxo de caixa único, em um ciclo virtuoso que, no fim das contas, possibilita maior investimento no time e a constante presença nas finais.