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Ponderação sobre um estádio próprio

Projeto de estádio – Foto: Divulgação

O GLOBO: Por Rodrigo Capelo

Depois de uma dúzia de estádios construídos ou reformados para a Copa do Mundo de 2014, o futebol brasileiro pode entrar nesta década em sequência de novas arenas, construídas por um clube aqui e outro ali. O Atlético-MG está próximo de terminar a sua casa própria. O Flamengo fala em erguer uma para mais de 100 mil pessoas. O Santos tem seu plano e avança com uma construtora. Não demora até que o Vasco conclua que São Januário precisa de reforma.

Falta um certo ceticismo à opinião pública. Torcedores são tão obcecados pela ideia — um estádio que simbolize a grandiosidade do clube —, que se apegam a simplificações grosseiras. Como é que se paga essa conta? Nada que não se resolva, e rápido, com torcida numerosa e paixão sem igual. Quando a fatura chega, a realidade se impõe e não há mais como retroceder.

Vejamos o caso do Atlético. Cinco anos atrás, seus dirigentes diziam que a arena custaria R$ 410 milhões e teria todo o custo quitado antecipadamente. A doação do terreno por Rubens Menin, a venda dos naming rights para a MRV, também propriedade de Menin, e a venda das cadeiras gerariam o dinheiro necessário para quitar as obrigações. Esperava-se que o equipamento fosse elevar receitas do clube e permitir novos investimentos no futebol.

Hoje, sabe-se que o estádio atleticano custará R$ 950 milhões e deixará dívida de R$ 440 milhões, a ser paga no decorrer de sete anos, entre outubro de 2023 e setembro de 2029. Receitas da própria arena serão direcionadas para essa finalidade: cadeiras, camarotes, bares, estacionamentos, bilheterias e sócios-torcedores, todas elas compõem a cesta de garantias oferecida a investidores. O futebol só botará a mão em todo esse dinheiro daqui a um tempo.

Existem riscos inerentes a esse tipo de operação. Se a dívida será paga com receitas da arena, haverá a necessidade de bater metas esportiva e financeiras. No caso do Atlético, o planejo do estádio conta com R$ 181 milhões em faturamento já em 2024, número razoavelmente alto. Também há riscos externos, como os juros da dívida, a inflação dos custos, a macroeconomia.

Não há motivo para pânico; o negócio é assim mesmo. Só deveria haver consciência sobre as dificuldades. A arena tem potencial para abrir fontes de arrecadação que o clube não teria de outro modo, mas virá acompanhada de custos com manutenção, limpeza, segurança. O ganho esportivo e financeiro que se pode obter no longo prazo é tremendo, mas a dívida consumirá parte relevante das receitas por quase uma década. Sempre há um “mas” a ser considerado.

A maluquice é que, por teimosia ou desinteresse, torcedores de um clube ignoram a história do outro. Quase todos os estádios da Copa tiveram promessas e planejamentos furados — sendo o do Corinthians o exemplo mais contundente. O caso do Atlético-MG tem virtudes, como não usar de dinheiro público e ter sido tirado do papel, e problemas, como um custo de construção muito além do anunciado cinco anos atrás e uma dívida de certa forma inesperada.

Quanto a construção vai custar? De onde virá o dinheiro? Quais serão os impactos nas contas do clube até que o estádio esteja pago? Quanto deverá ser gerado em receitas, para que sejam pagos os custos e também a dívida? Perguntas que torcedores podem se fazer, antes de cair na empolgação do estádio com um zilhão de lugares e do magnífico projeto arquitetônico.