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Discussão sobre estádio do Flamengo é muito mais ampla

Projeto de estádio – Foto: Divulgação

INFOMONEY: Por Cesar Grafietti

Um dos assuntos do momento é o novo edital do Maracanã e a ideia do Flamengo de ter um estádio próprio. Isso dá muita discussão, muita opinião, mas a verdade é que é tudo achismo.

Na minha carreira no mercado financeiro analisei uma quantidade bastante grande de projetos, de rodovias a portos, de ferrovias a aeroportos, de empreendimentos imobiliários comerciais a residenciais e até estádios. Posso dizer que conheço um pouco sobre as inúmeras histórias que deram certo, outras tantas que deram errado e uma parcela que chegou de um jeito e saiu de outro, melhorada.

Um projeto como o do novo estádio do Flamengo nasce de um estudo de viabilidade que, entre tantas análises, contém um business plan (ou plano de negócios). Nele constam o custo de construção, do terreno e das melhorias que o poder público exigirá. Isso vale até o projeto ficar pronto.

Depois disso, entram os custos operacionais, que contemplam os valores necessários para manter o estádio operando, seja em dias de jogos, seja em dias vazios. Tem também a manutenção, pois o estádio precisa se manter estruturalmente em ordem.

Daí entram as receitas, que vão além da bilheteria: camarotes, espaços publicitários, visitas, locações para shows e eventos.

Tudo bacana. E a única certeza que se pode ter ao finalizar o estudo de viabilidade é que ele estará errado e, em geral, será bem pior que o planejado.

Todo projeto precisa de alguém que o questione. Porque todo projeto nasce com a intenção e o desejo de ser sensacional, lucrativo, icônico.

Quem os desenha pensa no sucesso financeiro e raramente monta cenários B, C, D… e mais raramente ainda se fazem a pergunta: “o que pode dar errado?”

Projetos de valores elevados como um estádio de futebol demandam uma premissa inicial básica: financiamento adequado. Isso significa prazo longo e custo baixo.

Edifícios comerciais de escritório e shopping centers são financiados a custos relativamente baixos – considerando o cenário brasileiro – e prazos que vão geralmente acima de 15 anos. Simples: o custo é alto, a validade técnica da estrutura é longuíssima e o retorno se dá pela cobrança de aluguéis, que são uma fração bastante pequena do valor do ativo.

Exceto se o projeto for como o do estádio do Atlético Mineiro, que utilizou recursos “próprios”, seja da venda de parte de seus ativos, seja do aporte de seus mecenas, todos demandam financiamentos. E quando não são estruturados corretamente, costumam gerar problemas.

A Neo Química Arena passa por uma reestruturação de dívida com alongamento de prazos e juros bastante camaradas para o Brasil. O novo estádio do Tottenham teve financiamento de 23 anos com taxas de juros abaixo de 3% ao ano e com baixa chance de saltos que o tornem impraticáveis. No Brasil, a Selic saiu de 2% para 14% em cerca de dois anos.

Depois, é muito comum utilizarmos a lógica de que “se cobrarmos x reais de ingresso para 60 mil pessoas, teremos Y milhões de receitas e o estádio se paga facilmente”. Calma lá.

Um clube que vai às finais de todas as competições disputa cerca de 40 partidas por ano em casa. Dessas, dá para dizer que pelo menos umas dez são de baixo interesse. Daí entram os programas de sócios torcedores, a necessidade de cobrar ingressos cinco vezes maior que aquele X que todos esperavam, reclamações. E o clube nem sempre vai bem em todas as competições.

Enfim, aquela ideia de que a receita seria espetacular cai por terra. Dois ou três anos assim e a viabilidade foi para o ralo.

Tem também a manutenção. Estádios como o do Corinthians e do Palmeiras custam entre R$ 25 milhões e R$ 30 milhões anuais em manutenção. Normalmente, o estudo de viabilidade indica que haverá uma eficiência e aponta para menos. Mas a realidade será dura e mostrará que é mais.

“Ah, mas faremos dez shows por ano e teremos receitas adicionais relevantes”. É uma possibilidade. Mas é preciso combinar com quem vai contratar o estádio para que os eventos não sejam nos mesmos dias de partidas, especialmente os importantes. O Palmeiras costuma sofrer com isso, tendo que mandar partidas fora de casa quando o estádio está ocupado com shows. Perdas financeiras e técnicas que o estudo de viabilidade não considera quando está sendo pensado para aprovar o projeto.

Nada impede que tudo isso seja vencido e o projeto esteja corretamente desenhado com todas as possibilidades pensadas. Ainda assim existe a possibilidade de o poder público exigir mais intervenções que o necessário e isso aumentar o custo de construção da obra. O Atlético Mineiro sofreu com isso recentemente, algo que provavelmente não estava no estudo de viabilidade.

Nem tudo é evitável. Mesmo no melhor estudo de viabilidade, aquele em que as perguntas corretas foram feitas e as possibilidades de erros foram pensadas, pode haver problemas. Para isso, há a necessidade de estar pronto para períodos mais duros sob o ponto de vista financeiro: demandar mais dinheiro de outros setores do clube, reduzir investimentos, aumentar valores de ingressos. Faz parte.

Isso não significa que ter um estádio não seja bom. Financeiramente, pode ser interessante e cada vez mais o esporte moderno demanda instalações que atendam às expectativas do torcedor e ofereçam mais. Isso agrega receitas, mas essencialmente aumenta a relação entre torcedor e clube.

E tem ainda o aspecto esportivo. Ter a sua casa, aquele caldeirão em que o adversário já entra perdendo de 0,5 a zero, é algo que traz um valor subjetivo que se transforma em objetivo ao aumentar o desempenho esportivo nas partidas como mandante.

La Bombonera sempre foi um item de dificuldade para brasileiros, que se perdeu à medida em que as equipes do Boca Juniors perderam força. Mas Anfield Road é um terror para qualquer adversário que enfrente o Liverpool. Equipe qualificada em estádio potente é uma soma que costuma render taças.

Portanto, tudo pesado, a única certeza que eu posso dar neste momento sobre o estádio do Flamengo é que não dá para garantir nada por enquanto. Exceto que o estudo de viabilidade deve ser feito da forma mais justa possível, quase para não aprovar o projeto. Se ainda assim ele parar de pé, siga o jogo. Ah, sempre com muita transparência para o principal interessado: o torcedor.

*Cesar Grafietti É Economista, especialista em Banking e Gestão & Finanças do Esporte. 27 anos de mercado financeiro analisando o dia-a-dia da economia real. Twitter: @cesargrafietti