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Entrevista com presidente do Flamengo sobre estádio próprio

Rodolfo Landim, presidente do Flamengo – Foto: Alexandre Vidal

BLOG DO MAURO CEZAR PEREIRA: Item 3.8, letra e do Edital de Concessão do Maracanã, elaborado pelo governo do Estado do Rio de Janeiro: “Tribuna de Honra do Estádio do Maracanã e do Ginásio Maracanãzinho e camarotes: O futuro gestor do Complexo deverá preservar o direito de uso exclusivo e sem ônus das Tribunas de Honra existentes no Estádio do Maracanã e do Ginásio do Maracanãzinho, pelo Governo do Estado do Rio de Janeiro, em todos os eventos ali realizados. Além das mencionadas Tribunas, também deverá ser disponibilizado para uso exclusivo e sem ônus do Governo do Estado do Rio de Janeiro 07 (sete) camarotes – 317, 318, 319, 320, 321, 322 e 330 no Setor Oeste do Estádio, incluindo serviços (buffet) e uma cota de 40 (quarenta) vagas de estacionamento; complementa esta obrigação uma cota de 200 (duzentos) ingressos no setor oeste inferior do Estádio do Maracanã em todos os jogos de futebol que venha a ser realizados e 60 (sessenta) ingressos nos eventos realizados no Ginásio Gilberto Cardoso (Maracanãzinho)“.

O absurdo dessa cláusula é apenas um dos exemplos que mostram o quão leonino é o documento para os clubes que se habilitem a assumir a “arena” carioca da Copa do Mundo de 2014. O blog fez perguntas ao presidente do Flamengo a respeito do tema. Rodolfo Landim respondeu por WhatsApp. Fica claro que o clube, como o Fluminense, seu parceiro na gestão temporária do Maracanã, está refém do estádio, pois mesmo que leve adiante o plano de construção do seu, próprio, na região do Gasômetro, precisará lá jogar por anos até que a eventual obra seja concluída.

Com esse edital e trechos como este (acima) ainda há chance de o Flamengo desejar a concessão do Maracanã?
Neste momento, sim. Não temos opção melhor. Mas o futuro, a Deus pertence.

Mesmo com tantos itens que limitam o Flamengo, que não concedem autonomia aos clubes sobre o estádio, mesmo como gestores?
A resposta de cima permanece válida para esta pergunta também.

Então o projeto do Gasômetro não é algo que devamos levar como possível?
Pelo contrário. Mas não conseguimos implantá-lo em curto prazo. Mesmo que consigamos viabilizá-lo, ação que tem tomado um bom tempo nosso, não o faremos em um prazo muito curto e precisaremos de um estádio para jogar até o término da construção.

Então seria razoável uma concessão do Maracanã por alguns anos apenas?
Isso quem decide não é o Flamengo. Particularmente, não vejo o Estado como bom gestor de infraestrutura. Hoje é oferecido aos torcedores um serviço melhor do que no passado seja sob a administração direta do Governo ou de intermediário quando a Odebrecht operava. Nunca é demais lembrar também que o serviço hoje é sem custo para o Estado, que ao contrário, ainda cobra aluguel do Consórcio. Portanto, no lugar deles, procuraria adotar o maior prazo possível.

É possível o Flamengo assumir o estádio, paralelamente começar a erguer o seu próprio, para que, quando concluído, rompesse com o Maracanã? Existiria essa possibilidade, ou algo parecido?
Hipoteticamente, sim.

Essa situação envolvendo clubes que não são gestores do estádio é realmente delicada, não?
Complicadíssima. Ficam as responsabilidades para os concessionários e os direitos iguais para todos. Só lembrando, o Vasco foi convidado formalmente a participar da concessão e declinou na época alegando ter seu estádio e não precisar jogar no Maracanã. O Flamengo e o Fluminense administram o Maracanã desde maio de 2019, enfrentamos o período de Covid com enormes prejuízos e ninguém pediu para jogar lá.

Existem inúmeros relatórios técnicos feitos por agrônomos demonstrando que jogos consecutivos com menos de 48 horas para manutenção do gramado têm um efeito danoso exponencial. É recomendável não ter mais do que 50 jogos por ano no gramado, algo já impossível tendo Flamengo e Fluminense jogando lá. É ainda mais danoso sobrecarregar jogos durante o inverno quando a área norte do gramado não recebe sol durante todo o dia e a grama tem velocidade de crescimento e recuperação muito mais baixa.

Mas o Vasco não respeita nada disso até porque é franco-atirador. Oferecemos datas de meio de semana, por exemplo dia 31 de agosto, quando haverá jogo do Vasco contra o Guarani no Rio de Janeiro. Mas o Vasco declinou. Ele só quer domingos ou sábados, datas onde sempre haverá jogo um dia antes ou depois do Flamengo ou Fluminense. Não adianta argumentar que vai destruir o gramado, como de fato destruiu quando jogou com o Sport e obrigou o Flamengo e Fluminense, os concessionários, a tirarem três jogos do Rio para não terminarem o ano jogando em um campo de peladas.

Mas nada cria bom senso e compreensão por lá. Afinal a coisa mais importante era a estreia de um jogador que volta ao Vasco, sabemos em que condições, sem ver que o Flamengo pelo seu compromisso pela preservação do gramado e a prática do bom futebol teve que fazer em Brasília a estreia do Everton Cebolinha, jogador de nível de seleção brasileira e que custou 12 milhões de euros ao clube. É tecnicamente impossível, exceção feita em algumas datas especiais, acomodar jogos do Vasco sem sobrecarregar o gramado, a menos que parte dos jogos do Flamengo e Fluminense migrem para outros estádios.

E só lembrando, o Fluminense, nosso parceiro no Maracanã, concordou em uma enorme mudança que tivemos que fazer no gramado no final do ano passado e que nos impossibilitou de jogar a primeira fase do Carioca no Maracanã. O Fluminense foi o mais prejudicado porque deixou de jogar ali os dois jogos da pré-Libertadores. Mas negociou jogá-los em São Januário com a concordância óbvia do Vasco. O Fluminense pagou 240 mil reais adiantados pelos dois jogos. E sabe o que o Vasco fez? Após o primeiro jogo, devolveu o dinheiro do segundo ao Fluminense e mandou ele procurar outro estádio porque “tinha sido pressionado pela torcida para não deixar o Fluminense jogar mais lá”. Ainda bem que conseguiram convencer o Botafogo a ceder o Engenhão.

Já o Flamengo, reconhecendo que o Fluminense teria um jogo crucial na Sul-Americana, em uma pequena parada para manutenção que foi obrigado a fazer no gramado do Maracanã, transferiu seu jogo contra o Botafogo para Brasília. Diante de tudo isso, é justo dar o direito ao Vasco ou a qualquer outro Clube, sendo o Flamengo e o Fluminense os concessionários, a escolher datas para jogar no Maracanã, mesmo que claramente contribuindo para destruir o gramado e prejudicando a qualidade do futebol a ser jogado no Estádio?

Onde fica o compromisso com a melhoria dos espetáculos e até com a integridade física dos jogadores? Precisamos trabalhar para melhorar a qualidade do futebol brasileiro e isso passa entre outras coisas pelo gramado em que os jogos são feitos. Não existisse esse problema, é óbvio que o Vasco e todos os demais Clubes seriam mais do que bem-vindos todos os dias em que o Flamengo ou Fluminense não jogassem no Maracanã.

Gostaria de insistir num ponto: pode o Flamengo buscar a concessão do Maracanã, lá jogar até que um estádio novo e seu fique pronto, deixando a concessão de lado quando isso ocorrer, dentro das regras de rescisão estabelecidas? E ainda: é possível o Flamengo, sozinho ou com o Fluminense, propor ao Estado do Rio não a concessão, mas a venda do Maracanã?
Perfeito, suas perguntas fazem sentido, obviamente já foram fruto de discussões e definições internas, mas o Flamengo prefere não se posicionar em relação a elas publicamente nesse momento.