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Flamengo e o sonho antigo de um estádio próprio

Gávea, Sede do Flamengo – Foto: Divulgação

BLOG DO ACERVO: “Este é o dia mais emocionante de minha gestão. Nem mesmo quando o Flamengo conquistou o tricampeonato estadual e, a seguir, o Campeonato Brasileiro, fiquei tão feliz. Senhoras e senhores, tenho a honra e o prazer de lhes apresentar o Flamengo do ano 2000”.

O então presidente do rubro-negro carioca, Márcio Braga, estava nas nuvens. Naquela quarta-feira, 23 de julho de 1980, o dirigente era o anfitrião de um coquetel no antigo prédio do clube no Morro da Viúva, no Aterro do Flamengo, Zona Sul do Rio. O evento fora organizado com toda a pompa em torno da apresentação de um Plano Diretor para o clube que tinha três objetivos principais:

(1) Transferência de todo o departamento de futebol do Flamengo para uma área na Barra da Tijuca ou em Jacarepaguá, com campos de treinamento, instalações médicas e concentração para jogadores; (2) remodelação da sede na Gávea, com a repaginação do parque aquático, construção de um shopping center e criação de um complexo esportivo com 12 quadras de tênis e ginásios cobertos ; (3) construção de um estádio para 50 mil torcedores na Zona Norte do Rio, com subsede social.

Os anos seguintes, porém, mostraram como seria difícil a realização de todos aqueles sonhos. O centro de treinamento, já então apelidado de Ninho do Urubu, só começaria a ser utilizado pelo profissional no início da década passada, mesmo assim em instalações precárias (até hoje, não está concluído). O projeto do shopping center recebeu investimentos e, em diferentes momentos, parecia que sairia do papel, mas isso nunca aconteceu. E, até hoje, apesar de a torcida do time não se cansar de gritar que “o Maraca é nosso”, o Flamengo ainda não tem um estádio para chamar de seu. Pelo menos, oficialmente.

Maquete de novo estádio do Flamengo apresentada em 1980 – Foto: Reprodução

O gramado na Gávea não conta. Inaugurada em 1938, com arquibancadas de concreto em apenas uma margem do campo, a modesta infraestrutura às margens da Lagoa Rodrigo de Freitas, hoje com capacidade para 15 mil pessoas, não está à altura do clube de maior torcida do Brasil. Em 1994, foram erguidas arquibancadas tubulares ao redor do gramado, aumentando a capacidade local para 25 mil torcedores. O estádio passou, então, a receber jogos do Flamengo contra equipes menores, mas isso não durou muito tempo. O campo da Gávea não abriga uma partida oficial desde 1997.

O clube precisa de um estádio de médio porte para abrigar partidas sem caráter decisivo ou contra times “menores”, mas que, ao mesmo tempo, dê conta de acomodar seus próprios torcedores. Seria uma alternativa ao Maracanã, que continuaria recebendo os jogos mais importantes. Entre 2017 e 2018, por exemplo, o Flamengo utilizou o Estádio Luso-Brasileiro, na Ilha do Governador, que chegou a ser chamado de Ilha do Urubu.

A menina dos olhos da diretoria atual do clube é o projeto de construir um novo estádio na área do Gasômetro, próximo à Avenida Brasil, no Centro do Rio. O plano recebeu apoio de autoridades públicas, mas a negociação com a Caixa Econômica Federal, que tem o controle sobre o terreno, está no início. Em anos passados, diferentes propostas ganharam destaque no noticiário. Veja alguns:

Um novo estádio para a sede na Gávea?

Projeto de novo estádio na Gávea divulgado em 1976 – Foto: Reprodução

Projetos para a ampliação da sede do Flamengo na Gávea vêm desde, pelo menos, a década de 1960. Em sua edição de 12 de maio de 1976, por exemplo, O GLOBO noticiou a apresentação de um desenho de estádio com capacidade para 45 mil pessoas. O sonho, porém, jamais se concretizou. Em junho de 2007, na sua quarta gestão como presidente do Flamengo, Márcio Braga defendeu, num artigo no GLOBO, a construção de uma arena para 30 mil torcedores, que também ganharia um shopping center. No texto, ele lembrou que o clube cedera parte do terreno original para a auto estrada Lagoa-Barra, na década de 1960. “O que restou foi um pedaço de estádio”, escreveu. O plano de Braga recebera aval de Rosinha Garotinho em 2005, durante a gestão dela à frente do Estado do Rio. Mas, em setembro de 2007, o então governador, Sérgio Cabral, cancelou a permissão.

O plano de uma arena na Barra da Tijuca

Projeto de novo estádio na Barra da Tijuca apresentado em 1996 – Foto: Reprodução

Em 1996, o Flamengo estava às voltas com planos de construir a sua nova arena na Barra da Tijuca. O então presidente do clube, Kleber Leite, havia firmado uma parceria com a Pelé Sports & Marketing para viabilizar um empréstimo milionário junto a um banco inglês para começar a obra. Numa reportagem publicada pelo GLOBO em setembro daquele ano, o dirigente explicou que um assessor direto de Pelé estava visitando terrenos para definir onde seria erguido o estádio, que, no entanto, dependeria ainda da construção de um shopping center na Gávea. Segundo Leite, a arrecadação do shopping ajudaria a financiar as obras da arena, que teria como modelo o estádio do Barcelona de Guayaquil, com capacidade para 50 mil pessoas, estacionamento e camarotes de luxo (veja a imagem acima).

Possibilidade remota em Duque de Caxias

Terreno em Duque de Caxias oferecido para novo estádio do Flamengo – Foto: Reprodução

Em 2010, durante a gestão de Patrícia Amorim, primeira e única mulher a presidir o Flamengo em toda a história do rubro-negro, a prefeitura de Duque de Caxias, na Baixada Fluminense, ofereceu um terreno de 500 mil metros quadrados (veja localização acima) para receber o novo estádio do clube. A área, entretanto, nem sequer pertencia ao município, mas à Marinha do Brasil. Ainda assim, a direção do clube mostrou algum interesse (“O terreno me agradou”, disse Patrícia Amorim ao GLOBO na época). Então prefeito da cidade vizinha do Rio, José Camilo Zito se dispôs a intermediar a liberação da área com o ramo das Forças Armadas (“Vai depender do Flamengo”, afirmou ele). Mas as negociações não prosperaram.

Opção de compra em Manguinhos

Local do terreno em Manguinhos quase comprado pelo Flamengo, em 2017 – Foto: Divulgação

Eduardo Bandeira de Mello era o presidente do Flamengo quando o clube chegou a assinar o contrato de opção de compra de um terreno de 160 mil metros quadrados (veja localização acima), avaliado em R$ 157 milhões, em Manguinhos, próximo à Avenida Brasil, na Zona Norte do Rio. A direção rubro-negra parecia animada com a hipótese, mas, logo, foram levantados obstáculos que representaram um banho de água fria nos planos. Em primeiro lugar, havia o projeto de construção de um viaduto passando pela área em negociação. Além disso, questões de segurança e de falta de transporte público foram levantadas por especialistas ouvidos pela imprensa esportiva, na época. Mais uma vez, os planos não seguiram.

Projeto de novo estádio na Gávea apresentado em novembro de 1961 – Foto: Reprodução