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Arthur Muhlenberg: ‘Zico ampliou, modernizou e reconstruiu o Flamengo’

Foto: Reprodução de internet

Antes de 1953 o único fato relevante que já tinha acontecido em um dia 3 de março no século XX tinha sido o lançamento nas bancas de jornal dos Estados Unidos do primeiro número da revista Time, em 1923. Só 30 anos depois é que a data ganhou um significado mais universal por causa do que aconteceu numa casa na Rua Lucinda Barbosa, no subúrbio carioca de Quintino Bocaiúva.

Enquanto o time do Flamengo perdia um amistoso pro Santos na Vila Belmiro por 4 x 3, nascia o caçulinha da família Antunes, o jovem Artur Antunes Coimbra. O tempo é o senhor da razão e apenas dois dias depois, podemos até dizer metaforicamente que já com Zico integrando a equipe, o Flamengo ganhou do Santos em outro amistoso na Vila Belmiro pelo avantajado placar de 4 x 0. Ou seja, no primeiro jogo da vida de Zico como torcedor o Flamengo venceu. Era uma clara demonstração do poder de um destino manifesto.

Zico, cujo primeiro brinquedo foi uma bola e a primeira palavra foi Dida, era o produto mais desenvolvido da lendária genética dos Antunes. Nasceu e se criou entre craques e se fez ele mesmo um craque nas incontáveis peladas pelas ruas e campinhos do bairro natal. A trajetória foi rápida e sempre ascensional. Dos cascudinhos para as peladas de gol pequeno e delas para o Juventude, time montado pelos irmãos mais velhos e praticamente invencível. Do Juventude familiar para o futebol de salão do River, clube do bairro onde morou Euclides da Cunha, aquele que nas palavras de Nelson Rodrigues, “se tivesse conhecido a saga do Flamengo não teria escrito Os Sertões”.

Em 1967, ainda no salão do River Futebol Clube, Zico assombrava e fazia gols às dezenas. Alguém avisou ao Celso Garcia, radialista esportivo rubro-negro conhecido como “O Garoto do Placar”, que no bairro da Piedade surgira um fenômeno. Celso foi ver se era aquilo tudo mesmo e confirmou os boatos, o moleque era fenomenal. Imbuído do mais puro patriotismo foi à casa dos Antunes e convenceu a família a deixá-lo levar o caçula para um teste na Gávea. A família, rubro-negríssima, se dividiu. Havia um acordo de boca de levar o caçula pro América, onde já brilhavam os irmãos mais velhos Zeca e Edu.

Mas o patriarca dos Antunes determinou que a decisão fosse tomada pelo principal interessado, o próprio Zico. Que não hesitou em declarar “Quero ir pro Flamengo”. Levado pela mão por Celso Garcia e apresentado ao treinador da base Modesto Bria, aos 14 anos Zico pisou na grama sagrada da Gávea pela primeira vez. O que aconteceu depois, e hoje está nos bons livros de história, foi que desde então é costume citar Celso Garcia ao lado de Cristóvão Colombo, Américo Vespúcio e Pedro Alvares Cabral como um dos maiores descobridores da história ocidental.

Zico não apenas jogou bola demais no Flamengo. Como fizeram Otavio Augusto em Roma, o Barão Haussmann em Paris e o Prefeito Pereira Passos no Rio, sem, contudo, precisar colocar nada abaixo, Zico ampliou, modernizou e reconstruiu o Flamengo. A sua trajetória do clube é irretocável, incriticável, irrelativizável. Zico se tornou um paradigma, estando pro Flamengo assim como Copérnico está para a Astronomia ou Einstein está para a Física. Quando chegou, Zico encontrou um Flamengo gigantesco, ciclópico. E ao partir deixou um Flamengo mil vezes maior.

Até 1967 existia um Flamengo a.Z. e hoje ainda vivemos sob o esplendor da era d.Z. O que justifica plenamente os altos padrões de exigência da torcida rubro-negra. Zico nos acostumou bem, bem até demais. E sua importância institucional só pode ser comparada ao seu papel enquanto homem e atleta. Discorrer sobre o seu talento é desnecessário, os seus números preternaturais — 58 títulos e 508 gols em 732 partidas– falam por si.

Mais importante é destacar que Zico, desde sempre, demonstrou uma rigorosa ética de trabalho e uma extraordinária capacidade de vencer os muitos obstáculos e injustiças que apareceram no seu caminho. Desde o treinador da Seleção Olímpica para os jogos de Munique 72, Antoninho, aos venais Clive Thomas da Copa de 78, Abraham Klein da Copa de 82 e Marcio Nunes, do Bangu, Zico jamais aceitou que outros decidissem o seu destino.

Alguns dos versos do poema Se, que tem a mesma idade que o Flamengo, parecem ter sido escritos de encomenda para um triunfo de Zico.

(…)
Se és capaz de pensar –sem que a isso só te atires,
De sonhar –sem fazer dos sonhos teus senhores.
Se encontrando a desgraça e o triunfo conseguires
Tratar da mesma forma a esses dois impostores;
Se és capaz de sofrer a dor de ver mudadas
Em armadilhas as verdades que disseste,
E as coisas, por que deste a vida, estraçalhadas,
E refazê-las com o bem pouco que te reste;

Se és capaz de arriscar numa única parada
Tudo quanto ganhaste em toda a tua vida,
E perder e, ao perder, sem nunca dizer nada,
Resignado, tornar ao ponto de partida;
De forçar coração, nervos, músculos, tudo
A dar seja o que for que neles ainda existe,
E a persistir assim quando, exaustos, contudo
Resta a vontade em ti que ainda ordena: “Persiste!”;

Se és capaz de, entre a plebe, não te corromperes
E, entre reis, não perder a naturalidade,
E de amigos, quer bons, quer maus, te defenderes,
Se a todos podes ser de alguma utilidade,
E se és capaz de dar, segundo por segundo,
Ao minuto fatal todo o valor e brilho,
Tua é a terra com tudo o que existe no mundo
E o que mais –tu serás um homem, ó meu filho!

Estes poucos versos são suficientes para que Kipling se prove não apenas um bom poeta vitoriano, mas um ser humano presciente. Zico, que hoje talvez seja mais conhecido que Kipling, continua a sua obra sobre a terra que herdou com o mesmo rigor, a mesma alegria e a mesma atitude destemida com que chegou à Gávea naquele dia de setembro de 1967.

Hoje, dia feliz em que Zico completa mais uma volta completa em volta do Sol, pedimos licença ao poeta botafoguense Luiz Carlos da Vila para um sampler ligeiro. Parabéns, craque, ídolo, modelo e inspiração eterna. Zico, “sua chama não se apagou e nem se apagará, és luz de eterno fulgor”. Saudações Rubro-Negras.

Fonte: Diário do Fla