Aumento de mensalidade Off-Rio gera saídas de embaixadas de projeto do Flamengo

"Fla Campos" já formalizou desligamento de programa oficial do clube, e pelo menos outras quatro manifestaram intenção de sair. Grupos políticos repudiam reajuste de 165%

Foto da sede da Gávea repleta de faixas com representações de todo o país — Foto: Gilvan de Souza / Flamengo.com.br

GLOBOESPORTE: Cahê Mota e Felipe

A decisão do Conselho Diretor do Flamengo em aumentar em 165% a mensalidade da categoria de sócio Off-Rio gerou repercussão imediata no clube. Entre notas de repúdio de grupos políticos e cartas abertas criticando o reajuste, há um movimento entre as embaixadas espalhadas pelo mundo de se desligar do programa oficial rubro-negro, o Embaixadas e Consulados da Nação. Pelo menos cinco já manifestaram a intenção de sair do projeto.

O anúncio do reajuste foi feito em comunicado para os sócios na quinta-feira. Nele, ficou estabelecido que a partir de outubro a mensalidade do sócio Off-Rio passará de R$ 64 para R$ 170 mensais. A diretoria justificou que a categoria tinha direitos parecidos aos de sócios patrimoniais e proprietários, mas por um valor menor.

A reação foi rápida. Ainda na tarde de quinta-feira, a embaixada Fla Campos, do Norte do estado do Rio de Janeiro, formalizou seu desligamento do projeto Embaixadas e Consulados da Nação. A Fla Campos é considerada a maior embaixada do clube – calcula que cadastrou cerca de 700 sócios-torcedores ao longo do trabalho.

Na sequência, Fla Floripa, Fla USA/New England, dos Estados Unidos, Fla Resende e Fla Macaé também manifestaram a intenção de sair do programa. A Fla USA anunciou o desligamento em suas redes sociais, enquanto a Fla Macaé condicionou a saída à manutenção do reajuste.

– Informamos também que caso seja mantida essa decisão, a Fla Macaé, que hoje é uma das 5 maiores embaixadas do programa de Embaixadas e Consulados, irá se DESLIGAR do programa – diz o trecho de uma nota de repúdio da Fla Macaé.

Em decorrência dos últimos atos tomados pelo CRF, a 𝐅𝐋𝐀-𝐔𝐒𝐀 NE informa aos seus membros e seguidores q tb estará se desligando do projeto Embaixadas e Consulados da Nação.

Procurado, o vice-presidente de Embaixadas e Consulados, Maurício Gomes de Mattos, afirmou que vai tentar resgatar todas as embaixadas que saírem do projeto.

– Respeito as posições dos meus embaixadores. Admiro o trabalho deles e vou lutar para resgatá-los – disse o dirigente.

Em Santa Catarina, sócios se organizaram para assinar uma carta aberta contra a decisão. Eles reclamaram do desequilíbrio do programa e afirmaram que a medida também tem viés político. Alguns associados chegaram até a cogitar entrar na Justiça contra o aumento, considerado abusivo por eles.

– O torcedor de fora do Rio de Janeiro já paga para não usufruir e é o mais fiel aos produtos e aos artigos originais. Além disso, não tem nenhum tipo de benefício quando o time joga em sua cidade e tem enorme dificuldade em conseguir ingressos para jogos importantes. Diante de tanto desequilíbrio em uma relação que deveria ser de mão dupla, pautada pelo amor e pela reciprocidade, registramos nossa indignação diante do aumento abusivo e desproporcional, com claro objetivo político – diz um trecho da carta.

Carta de sócios Off-Rio do Flamengo — Foto: Reprodução

Grupos políticos criticam decisão

A política rubro-negra também se mexeu com o reajuste. Diversos grupos se manifestaram publicamente contra a decisão. Emalguns textos, foi lembrado que há uma emenda a ser votada no Conselho Deliberativo para que seja incorporada ao estatuto do clube a categoria de sócio Off Rio.

Atualmente, os sócios Off Rio têm direito a voto, mas no estatuto são incluídos na categoria contribuinte, embora paguem um valor menor. A emenda visa a oficializar de vez o Off Rio como uma categoria de sócio do Flamengo.

– Entendemos que a medida inviabiliza a continuidade dessa categoria, além de comprometer a maior participação da Nação na vida associativa do Clube, uma das bandeiras defendidas pelo grupo. Surpreende que tal medida seja adotada logo agora que caminha para votação emenda visando à legitimação do associado Off-Rio – diz a nota do “SóFla”.

O grupo “Flamengo Sem Fronteiras”, que conta com membros de 14 estados do Brasil e em outros três países, se disse surpreendido pela decisão.

– O intuito de tal arbitrariedade parece ser de diminuir a quantidade de sócios OffRio, que lutam a cada dia por mais representatividade no clube. (…) Sentimos muito pelos sócios OffRio, que hoje se sentem traídos e recebem o recado claro e objetivo dado pelo Conselho Diretor do Flamengo. O torcedor do Flamengo serve para doar dinheiro ao Clube, e desde que não tenha o desplante de achar que pode participar das decisões políticas do Clube – diz um trecho da nota do “Flamengo Sem Fronteiras”.

O “Flamengo da Gente” chamou a medida de “Edital de Expulsão dos contribuintes Off Rio do Clube de Regatas do Flamengo”.

– A decisão do Conselho Diretor afirma de vez a entrega do Clube aos que se juram seus “donos”, gente que, por nascimento ou patrimônio, considera-se eleita pela História para mandar no maior Clube do Brasil. Sim, há quem sinta-se realizado em ser a elite da elite dentro de um clube de apelo popular – criticou.

Leia as notas na íntegra:

SóFla:

“O SóFLA repudia o injustificado e desleal aumento nas mensalidades dos associados Off-Rio. Entendemos que a medida inviabiliza a continuidade dessa categoria, além de comprometer a maior participação da Nação na vida associativa do Clube, uma das bandeiras defendidas pelo grupo.

Surpreende que tal medida seja adotada logo agora que caminha para votação emenda visando à legitimação do associado Off-Rio.

Lembramos que há mais de 7 anos o SóFLA luta pela legitimação do associado Off-Rio e do voto à distância. Assim fazemos por acreditar que tais medidas são essenciais para a maior democratização do Clube.”

Flamengo Sem Fronteiras:

“Nós do Grupo Flamengo Sem Fronteiras, fomos surpreendidos hoje pelo comunicado do Conselho Diretor do Flamengo informando o reajuste de 165% na mensalidade da categoria Associado Contribuinte OffRio.

De forma arbitrária, esse reajuste foi comunicado sem qualquer aviso prévio em meio ao momento econômico singular que todos vivemos, está restrito apenas a essa categoria de sócio (sem que as outras categorias tenham tido qualquer tipo de reajuste), e não apresenta em troca nenhuma contrapartida.

Lamentamos muito essa atitude, repudiamos de forma veemente este aumento. Não podemos acreditar que o clube oriente o associado a cancelar sua participação como sócio do Flamengo, para se tornar sócio torcedor, mostrando que vê no associado que reside fora da região metropolitana do Rio de Janeiro apenas uma fonte de ajuda financeira a título de doação, e não uma oportunidade de ampliar a representatividade do quadro de sócios do Flamengo, espelhando em sua vida política a verdadeira razão da grandeza do Clube, sua representatividade nacional única.

Não podemos aceitar que após enviarmos ao Conselho Deliberativo nossa proposta de emenda estatutária, solicitando simplesmente a presença e reconhecimento do OffRio no estatuto do clube, sem acrescentar nenhum direito além daqueles já em gozo por esses associados, seja essa categoria presenteada da pior forma, com um aumento abusivo, acompanhada da sugestão a se retirar do quadro associativo do Flamengo.

O intuito de tal arbitrariedade parece ser de diminuir a quantidade de sócios OffRio, que lutam a cada dia por mais representatividade no clube. O ato de igualar os valores dos que moram no Rio de Janeiro e utilizam as instalações do clube no dia a dia, a associados que muitas vezes jamais estiveram presentes fisicamente na Gávea, mostra que não somos bem vindos.

Chega a ser curioso que o clube adote uma medida como essa no momento em que se prepara para lançar uma modalidade de sócio torcedor denominada “Flamenguista” cujo alvo é a popularização.

Sentimos muito pelos sócios OffRio, que hoje se sentem traídos e recebem o recado claro e objetivo dado pelo Conselho Diretor do Flamengo. O torcedor do Flamengo serve para doar dinheiro ao Clube, e desde que não tenha o desplante de achar que pode participar das decisões políticas do Clube. O Grupo Flamengo Sem Fronteiras não ficará calado, vamos continuar a lutar pelos direitos do sócio OffRio, por um Flamengo plural que seja, cada vez mais, um espelho da grandeza da Nação Rubro Negra. O Flamengo é de todos. O OffRio merece respeito.”

Flamengo da Gente:

“O Conselho Diretor do Clube de Regatas do Flamengo tomou nesta quinta-feira (27/08/2020) um passo decisivo para fechar ainda mais a já fechadíssima política do Clube. Anunciou o aumento da mensalidade da categoria Contribuinte na modalidade Off Rio de R$ 64 para R$ 170, um salto espantoso de 165% em tempos de pandemia e crise.

O Flamengo da Gente repudia de forma veemente o mal disfarçado Edital de Expulsão dos contribuintes Off Rio do Clube de Regatas do Flamengo e promete agir no limite de suas capacidades para deter tamanho absurdo.

Os contribuintes Off Rio são sócios que, hoje, só podem frequentar a sede do Clube num máximo de trinta dias por ano. São, na maioria, rubro-negros e rubro-negras que querem participar dos destinos do Clube, mesmo de longe. Não o fazem por caridade, não o fazem por hobby, não tiram dinheiro do orçamento familiar por gosto: querem o Flamengo mais forte sim, mas pagam o que pagam, extraindo o pouco que extraem, para serem cidadãos na imperfeita e elitista democracia rubro-negra.

A decisão do Conselho Diretor afirma de vez a entrega do Clube aos que se juram seus “donos”, gente que, por nascimento ou patrimônio, considera-se eleita pela História para mandar no maior Clube do Brasil. Sim, há quem sinta-se realizado em ser a elite da elite dentro de um clube de apelo popular.

Em breve, o Conselho Deliberativo do Clube de Regatas do Flamengo deve votar uma emenda para incorporar ao Estatuto a figura do sócio contribuinte Off Rio, sob o guarda-chuva da categoria de contribuinte, já existente. A emenda, que solidifica o status dos Off Rio no regramento do Clube, era e segue importante para calar a tentação de uma minoria ansiosa por pisotear direitos adquiridos. Mas e agora? Com o disparo da mensalidade dos Off Rio, aqueles que queriam ver a modalidade extinta devem estar satisfeitos: varrerão do Clube uma massa que julgavam “indesejada” e, como esmola, lançarão aos remanescentes a letra de direitos já desfrutados. É o fechamento perfeito.

Não basta festejar ganhos setoriais, nem saudar como transformadores acenos de avanços simbólicos à custa de perdas reais. Tampouco é possível perseguir, cercear e ameaçar acreditando que a onda nunca baterá contra o seu próprio barco. Só um Flamengo pode ser mudado: o Flamengo inteiro.

É preciso derrotar a oligarquia no Flamengo. É imperativo sepultar de vez a ideia de que o Flamengo seja um clube de sócios proprietários. É urgente incorporar às metas de arrecadação, tão bem cumpridas, a meta institucional de ampliar a democracia no Flamengo, de incorporar mais vozes e mais realidades à vida do Clube. A democracia tem de começar pelo Flamengo. Não pode morrer nele.”

Deixe uma resposta