Há 42 anos, Flamengo vencia o Real Madrid na final do Torneio de Mallorca com oito jogadores em campo

Em um jogo de superação na Espanha, Fla teve o técnico, três jogadores e todo o banco de reservas expulsos, mas foi heroico para ficar com o título, conforme recordam Júnior e Ramírez


GloboEsporte Por Gustavo Garcia: Uma verdadeira batalha de superação no melhor estilo Flamengo. Uma verdadeira vitória digna de filme, com roteiro surpreendente e até final dramático. Há exatos 42 anos, no dia 19 de agosto de 1978, o Flamengo fazia história e vencia o poderoso Real Madrid, na Espanha, pela final do “Troféu de Palma de Mallorca”, com oito jogadores em campo.

E não seria clichê dizer que foi uma vitória – como os torcedores gostam de dizer – também no estilo “contra tudo e contra todos”, já que o Flamengo precisou vencer também uma arbitragem caseira de Jesús Ausocúa Sanz, que foi destaque até nos jornais espanhóis.

“O incrível patriotismo do árbitro Jesús Ausocúa Sanz marcou o jogo final do Torneio de Palma, a ponto de transformá-lo em um espetáculo lamentável. O Flamengo, no primeiro tempo, havia oferecido uma bela aula de futebol”, crônica do jornal espanhol El País.

A partida foi válida pela décima edição do Torneio de Mallorca, que contou com outras duas equipes além de Flamengo e Real Madrid: Rayo Vallecano, da Espanha, e o Molenbeek, da Bélgica, que foram derrotados nas semifinais por Flamengo e Real, respectivamente.

O confronto decisivo aconteceu no antigo estádio Luis Sitjar, de Palma de Mallorca, que pertencia ao time de mesmo nome. Sem Zico, que ficou no Rio de Janeiro se recuperando de uma lesão, o Flamengo entrou em campo sem o favoritismo, principalmente por jogar com a pressão da torcida adversária.

Mas logo no começo do jogo, surpreendendo o Real Madrid, mostrou grandeza ao abrir o placar com Cláudio Adão, aos 9 minutos. E o Flamengo não parou por aí: aos 37, Cléber ampliou o placar para coroar o grande primeiro tempo do time carioca.

– Esse jogo contra o Real Madrid, lá em 1978, só dá para rir mesmo, porque aconteceram tantas coisas naquele jogo, que eu não me lembro de ter passado – Júnior, aos risos.

Vitória também foi destaque no Jornal O Globo — Foto: Reprodução Acervo O Globo

No segundo tempo, porém, o panorama da partida mudou. O Real Madrid cresceu no jogo. E, aos 12 minutos, com uma “ajuda do árbitro”, conforme relatos dos jornais da época, conseguiu um pênalti.

– O árbitro começou a ser muito parcial, e eles (torcedores) notaram logo. O jogo estava igual, o Real Madrid era uma grande equipe, e nós jogávamos sem o Zico. Mas nosso time estava começando já a se montar para dar um seguimento grande a partir de 1980 com o Campeonato Brasileiro. E chegou uma certa hora que os torcedores ficaram tão enraivecidos que começaram a jogar aquelas almofadas que eles usavam para sentar dentro do estádio – Júnior, ex-lateral rubro-negro.

Insatisfeito com a marcação “duvidosa”, Eli Carlos acabou sendo expulso por reclamação após a penalidade, que acabou convertida por Aguilar. Começava ali o drama rubro-negro com um festival de expulsões.

Jornais espanhóis também se renderam ao feito do Flamengo — Foto: Reprodição El Mundo Deportivo

Aos 62 minutos, foi a vez de Toninho deixar o jogo por reclamação de um escanteio convertido em tiro de meta. Para recompor a defesa, o técnico Cláudio Coutinho mandou o uruguaio Ramírez para o jogo:

– Foi fantástico aquele jogo! O juiz começou a aprontar. A roubar a gente. Foi fantástico porque ficamos com oito em campo e o banco foi todo expulso. E eu lembro que o Adílio fez estrago. Quando pegava a bola no cantinho tirava os gringos para dançar (risadas) – Ramírez.

“Depois dos protestos do Flamengo e da primeira expulsão, o show do árbitro não teve mais momentos de trégua”, jornal El País.

Flamengo conquistou o Palma de Mallorca em 1978 — Foto: Flamengo

E as expulsões continuaram. Aos 72 minutos, Cleber também tomou o vermelho. Na sequência, o técnico Cláudio Coutinho e todo o banco de reservas também foram expulsos por reclamação. Com oito em campo, o Flamengo passou a se segurar como dava.

“Os gringos, os espanhóis, como sabiam que eu falava espanhol, eles ficaram falando para tirarmos o time de campo. Tira o time de campo (risos). Queriam que abandonássemos o jogo (após as expulsões). Mas nós matamos eles lá. Foi lindo, foi muito bom”, afirma Ramírez

– Nós jogamos mais de 20 minutos com 8 jogadores e mesmo assim conseguimos ganhar o jogo – recorda, com alegria, Júnior.

Ficha técnica da partida — Foto: Reprodução Jornal O Globo

Após a vitória, para embalar a festa da conquista, como era de costume naquele time do Flamengo, nada melhor que um ritmo totalmente brasileiro, como conclui Ramírez.

– O Francalacci (preparador físico da época) pediu para buscarmos os instrumentos nos vestiários. E demos a volta olímpica com samba. No outro dia saiu assim no jornal: “Flamengo, campeão no balón (bola) e campeão no samba”, recorda Ramírez, aos risos.

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