A caminho do Flamengo, Isla virou ídolo após abandono do pai e não esquece de raízes no Chile

Foto: Jorge Saenz

Extra: Marcello Neves
O Brasil tem mais de 5,5 milhões de crianças sem o nome do pai na certidão de nascimento, segundo dados do Conselho Nacional de Justiça (CNJ). O principal motivo é o abandono paterno de recém-nascidos. Pessoas que não querem assumir os filhos. Este fato não acontece apenas por aqui. No Chile, situação semelhante impactou a vida de Mauricio Isla, que está próximo de ser anunciado como reforço do Flamengo.

Antes do sucesso na Europa e da idolatria na seleção chilena, o lateral-direito viu a mãe, Maria Isla, encarar este drama familiar. Adolescente, engravidou aos 16 anos e viu o pai fugir — e não assumir a criança.

Solteira, enfrentou sozinha as dificuldades da maternidade e teve Mauricio, que quase faleceu devido a uma gravidez prematura.

— Ele [Isla] ficou hospitalizado nos primeiros meses de vida devido a bronquite. Finalmente, com um ano de vida, teve alta definitiva e nunca mais ficou doente — contou Maria, que batizou Mauricio em homenagem ao filho falecido de um casal de amigos, ao jornal chileno ‘La Tercera’.

Isla cresceu nas ruas de Buin, uma comunidade pertencente a província de Maipo, ao sul da capital Santiago. Morava em uma casa simples ao lado de um campo de futebol de terra batida. Lá, rapidamente descobriu a paixão pelo esporte e se mostrou talentoso. Aos 11 anos, foi indicado pelo professor de Educação Física, Enrique Carrasco, para fazer um teste nas categorias de base da Universidad Católica.

— Para mim ele é um filho verdadeiro. Ele me chama de pai. Eu não sou biologicamente, mas nos ajudamos e nos respeitamos muito. Então é como se ele fosse. Tenho orgulho de ter estado junto e ver tudo que ele está conquistando — explicou o professor, que apadrinhou Isla durante toda a sua formação.

Ele cresceu, evoluiu e virou uma promessa. Em 2007, após um belo desempenho no Mundial Sub-20, foi contratado pela Udinese e não estreou profissionalmente no Chile. Sem consequências da bronquite prematura, se tornou um jogador de grande imposição física que deixou o país muito cedo. Porém, não esqueceu de suas raízes.

Mauricio Isla (camisa 4) ao lado de Valdívia na seleção do Chile Foto: HENRY ROMERO / REUTERS

Todo Natal, o lateral-direito retorna ao Chile e vai às ruas de Buin para distribuir presentes às crianças. Ao lado de Claudio Bravo, ex-goleiro do Barcelona e do Manchester City, também ajuda financeiramente com bolsas de estudo aos jovens que desejam entrar em colégios da região.

Isla e Bravo cativaram um carinho tão grande no bairro que duas das ruas foram batizadas com o nome dos atletas.

— Isla, Bravo e jogadores como Arturo Vidal, Alexis Sanchez e Gary Medel estão entre os maiores ídolos do Chile. Eles fizeram parte de uma mudança de geração, que se tornou a mais vitoriosa da história da Roja [seleção chilena] — conta o jornalista Francisco Contreras, que acompanha a carreira de Isla.

O lateral-direito foi eternizado pelo gol marcado contra o Uruguai, na semifinal da Copa América de 2015. Decisivo, levou o clube à decisão do que seria o primeiro título profissional da história do país. Isla é o quinto jogador com mais partidas na história da Roja, com 115, também ergueu a Copa América em 2016 e disputou duas Copas do Mundo.

O Flamengo acertou os últimos detalhes para a contratação de Isla para a vaga deixada por Rafinha. O vice de futebol Marcos Braz e o diretor Bruno Spindel chegaram à Espanha e acertaram o acordo de dois anos e meio – até o fim de 2022 – com o agente do atleta, Arturo Jimenez.

Isla organiza a viagem para o Brasil com a família, ao mesmo tempo em que será submetido a exames médicos. Mas a bateria de avaliações também vai acontecer na chegada ao Ninho do Urubu. A expectativa é desembarcar no Rio ainda esta semana para se integrar ao elenco do técnico Domènec Torrent.

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