Autor de Livro sobre Guardiola vê Torrent se adaptando ao Fla e detalha estilo de jogo do treinador

Marti Perarnau passou um ano com Torrent e Guardiola no Bayern e escreveu livro sobre o período. Para ele, técnico não terá dificuldade para trabalhar no Brasil

Quando o nome de Domènec Torrent surgiu como uma das possibilidades para assumir o Flamengo, a primeira referência a ele foi o livro “Guardiola Confidencial”. Nele, o autor Marti Perarnau destrincha a temporada inicial de Pep Guardiola no comando do Bayern de Munique, com diversas citações ao então auxiliar Torrent.

Perarnau conviveu durante um ano com Torrent, mas também acompanhou o trabalho do profissional antes e depois daquela passagem. É catalão como o novo treinador do Flamengo e um entusiasta do aspecto tático do futebol – um dos principais teóricos do famoso jogo de posição, a forma que Guardiola e Torrent usam para montar seus times no ataque.

Para ele, a principal característica de Domènec Torrent é conseguir se adaptar aos clubes em que trabalha, mais até do que Guardiola. Assim, acredita que o treinador não terá problemas em trabalhar no Flamengo – claro, sem abandonar sua ideia de jogo.

– É sua principal característica, saber adaptar-se ao que há em cada momento, em cada partida, cada situação.

Nesta entrevista com o ge, Perarnau explica melhor os conceitos táticos de Domènec Torrent e mostra por que acredita que não haverá maiores dificuldades para que o técnico e os jogadores se entendam como a torcida do Flamengo espera. Confira:

ge: Qual era o papel de Domènec Torrent com Guardiola? Como era possível mensurar sua influência no Barcelona, no Bayern e no Manchester City?

Martí Perarnau: O papel foi mudando ao longo dos anos. Começou como um analista de scouting de Barça, das equipes rivais. No Bayern e no City atuou como segundo treinador. Cada vez teve mais influência em Guardiola.

No Bayern, na primeira experiência de Guardiola fora, Domènec o ajudou muito a se adaptar. Aprendeu alemão igual a Pep, trabalhou muito as jogadas de bola parada. Foi um apoio importante.

No City ainda mais, porque no primeiro ano não houve bons resultados, e Dome teve um papel mais pessoal. Ele é um pouco mais velho que Pep, é uma pessoa de muito caráter, muito tranquila, experiente, e na parte pessoal o ajudou muito a superar esse primeiro ano.

Pep Guardiola e Domènec Torrent no Manchester City — Foto: Getty Images

Ficou famosa a ideia de Torrent em colocar Lahm como meio-campista no Bayern. Há outros exemplos desta percepção tática dele ao longo dos anos?

O exemplo de Lahm é o mais visível. Ocorreu durante uma partida, a final da Supercopa Europeia. Isso foi muito chamativo, porque Pep quis explicar e que se soubesse que a ideia não havia sido sua, mas de Torrent. Mas, em geral, normalmente os dois discutiam juntos as ideias táticas.

Logicamente, Domènec teve mais ideias, mas quem as direcionou foi Pep.

Quando o Bayern jogou contra a Juventus na Champions, estavam todos os zagueiros lesionados. Bayern só tinha Alaba para improvisar, e a discussão que havia entre eles era se utilizavam a Vidal ou Kimmich como parceiro de Alaba.

Em um treino, os dois conversaram e testaram Kimmich, e foram construindo a ideia para ver se Kimmich poderia fazer o trabalho de zagueiro. Eles foram o corrigindo ao longo do treino –ora Pep, ora Domènec. No final, o Bayern jogou com Alaba e Kimmich e ganhou da Juventus.

No Flamengo, Torrent vai encontrar um clube de muita pressão, a sombra de Jorge Jesus e um tempo curto para treinos. Que qualidades ele tem para conseguir encarar tudo isso?

São circunstâncias que acontecem muitas vezes no futebol. Quando Pep chegou ao Bayern, encontraram algo parecido, com um time que ganhou a tríplice coroa na temporada anterior. Domènec foi para o New York no meio da temporada, com poucos jogadores, e a pressão de dar o salto de virar treinador.

Domènec sabe que estas são as condições habituais em todas as equipes. Não creio que seja sua preocupação, e sim analisar o plantel que existe e ver se com poucos treinos pode praticar o jogo que ele propõe.

É um jogo com personalidade própria. Pode parecer ser uma cópia de Guardiola, mas no New York ele praticou um jogo um pouco diferente, se adaptou ao plantel. A ideia essencial, evidentemente, é a mesma, o jogo de posição, uma maneira de jogar que vem desde Cruyff, mas com sua personalidade própria.

No New York vimos muitas variáveis de sua maneira de jogar: com falso nove, com centroavante, com dois pontas, com laterais por fora, por dentro, muitas variáveis. Domènec tem sua personalidade própria. Uma característica dele é se adaptar aos jogadores dos quais dispõe.

Domènec fala que é importante esperar a bola chegar até você. Cumprir as posições e muitas vezes não se movimentar. Muitos jogadores brasileiros têm dificuldade de entender isso e gostam de se aproximar da bola. Era um dos pontos fortes do Flamengo. Você acha que pode ter alguma dificuldade nessa adaptação?

Primeiro, é bom dizer que a temporada de Jorge Jesus no Flamengo foi extraordinária em todos os sentidos.

Não é exatamente assim. Não é que cada jogador tenha que cobrir sua posição, é um pouco diferente. Em cada momento tem que ter um jogador que cubra cada posição. Não é que ele não possa se mover. Ele pode, mas em todo momento tem que haver alguém que ocupe a posição que outro companheiro abandonou.

Por exemplo, se um meia vai até a ponta, ali alguém terá que ocupar a posição do meia. As posições têm que estar ocupadas, mas não necessariamente pelo mesmo jogador.

Isso necessita trabalho, compreensão, mas não creio que o jogador brasileiro tenha dificuldade especial em dominar isso. Rafinha, por exemplo, fez um trabalho formidável no Bayern e foi uma peça importantíssima quando Lahm foi ao meio-campo. Jogava como lateral por dentro e ocupava muitas posições, chegou a jogar como ponta no Bayern.

Domènec e Guardiola trabalharam com muitos jogadores brasileiros. São fanáticos por eles. Contrataram Douglas Costa no Bayern. Fernandinho, no City, joga em todas as posições possíveis. Guardiola fala maravilhas de Fernandinho, e Domènec também.

Domènec Torrent em sua passagem como técnico do New York City FC — Foto: Reprodução / Facebook

No Flamengo, a referência posicional no ataque era sempre a bola. Com Domènec, a referência é o espaço. É difícil para os jogadores mudarem de um estilo para o outro?

É um processo de adaptação, mas os jogadores são muito mais inteligentes do ponto de vista do jogo do que se pensa. Isso ocorreu no Bayern e no Manchester City, onde os conceitos de jogo eram muito diferentes.

Houve um período de adaptação, produzem-se momentos em que as coisas não saem bem, depois outros pedaços da partida em que as coisas saem bem.

Mas, com o tipo de jogadores que há no Brasil, o normal é que depois de umas semanas de treinos e partidas o processo de adaptação se produza sem mais dificuldades.

Haverá um dia em que jogarão mal, que haverá um mal resultado, mas não é um processo de adaptação extraordinariamente difícil. Com os jogadores que há, o normal é que a maioria deles compreendam a maneira de jogar e se adaptem.

Você disse que Domènec tem sua personalidade própria quanto ao jogo. Qual seria a diferença dele para Guardiola?

O próprio Guardiola mudou muito sua maneira de jogar ao longo dos anos. Basicamente, Domènec começou antes de Pep, num futebol de terceira divisão na Catalunha. Teve à sua disposição jogadores de menor categoria. Neste sentido, ele se adapta um pouco mais ao plantel do que o próprio Pep.

Quando chegou ao New York, era o segundo ano, e contratou poucos jogadores, e não eram os que ele queria. Ele se adaptou aos jogadores, aos tipos de campo, essa mescla de grama natural e artificial que há na MLS. Teve que jogar num campo de beisebol adaptado. Ele se adapta muito ao que tem. Não é tão dogmático.

No New York se notou muito. Especialmente pelo tamanho tão pequeno do campo, não podia jogar de uma maneira tão ortodoxa o jogo de posição. Neste sentido ele se adaptou muito bem. Adaptou-se aos jogadores também, e ganhou a conferência.

A principal diferença é que Dome, em sua carreira, se adapta mais às circunstâncias.

No New York ele teve muitas dificuldades econômicas e não podia contratar os jogadores que queria. Fez muitas adaptações, tinha um meio-campista e o transformou em zagueiro. Maxi Moralez, ele o fez jogar de tudo, de primeiro volante, de segundo volante, de meia, ponta, falso nove. Heber jogou em qualquer posição do ataque. Neste sentido são muitas adaptações.

GloboEsporte: Felipe Schmidt