Na prolongada queda de braço travada entre o Flamengo e a Rede Globo, por conta dos direitos de transmissão dos jogos do Estadual do Rio, o grande derrotado é o torcedor rubro-negro, impedido que está de ver, na telinha, muitos dos shows daquele que é o seu time mais espetacular, desde os anos de ouro da era Zico.

Como a lua de mel entre torcida e clube prossegue numa paixão tórrida, alimentada pelas conquistas, da Libertadores e Brasileiro, em 2019, e da Supercopa do Brasil à Recopa Sul-americana, passando pela Taça Guanabara, em 2020, muita gente ainda defende a posição dos dirigentes da Gávea, certos de que eles lutam por um “bem maior” – o reconhecimento do real valor desse timaço, indiscutivelmente superior, em termos técnicos, aos coirmãos do Rio, Fluminense, Botafogo e Vasco.

O problema é que a TV já decidiu – e não arredará pé dessa posição – que nenhum real a mais será pago ao rubro-negro. Desde o surgimento do impasse, não houve, nem haverá, proposta diferente dos R$ 18 milhões oferecidos a cada um dos quatro grandes que disputam o “carioquinha”.

Por uma questão de princípio definida por seus novos executivos (não incentivar o aumento da desigualdade, em termos de faturamento) e por um detalhe fundamental, desconhecido de muita gente, mas que os cartolas rubro-negros, ditos “homens de mercado”, tinham a obrigação de saber: não há mais dinheiro sobrando nos cofres da chamada “Vênus Platinada”.

Acredite, o futebol na Globo, que já foi altamente lucrativo, hoje em dia dá prejuízo. Sim, opera no vermelho! Ou seja, o que se gasta com a milionária compra dos direitos e a dispendiosa operação das transmissões não é nem de longe coberto pelas cotas de publicidade, vendas de pay-per-view e assinaturas dos canais esportivos a cabo. Simples, assim. Pura matemática.

Para que se tenha noção de como a coisa anda complicada, uma informação: nem todos os jogos da seleção brasileira nas próximas eliminatórias serão transmitidos pela Globo. É isso mesmo que você leu: a outrora toda-poderosa rede de TV dos Marinhos decidiu economizar e não comprou todas as partidas da equipe de Tite no seu caminho até a Copa no Catar! Dava para imaginar algo assim, há pouco tempo? Pois é…

Essa desenfreada inflação dos preços do futebol, que por aqui nasceu e cresceu, em espiral alucinante, nos tempos de Marcelo Campos Pinto (o primeiro diretor do núcleo de compra de direitos esportivos da Globo, que se tornou figura fácil nos gabinetes da CBF e dos grandes clubes), essa gastança desenfreada está cobrando seu preço agora.

Desde aquela época de fartura, as gordas cotas de TV passaram a ser a maior parte do faturamento de todas as agremiações e uma autêntica taboa de salvação no futebol que, ano após anos, exigia mais. Só que, agora, o mercado, em crise, entrega para a TV cada vez menos. E essa diferença, mais cedo ou mais tarde, será repassada aos clubes.

Para que se tenha noção do tamanho do problema, basta dizer que até mesmo o Flamengo, há pouco mais de seis anos tão bem administrado em termos financeiros, ainda têm no dinheiro da televisão o maior quinhão de seu orçamento: na projeção deste ano, são R$ 283 milhões previstos nessa “gaveta”, contra R$ 126 milhões em patrocínios, R$ 108 milhões em bilheterias e estádio, R$ 96 milhões em sócio torcedor, R$ 80 milhões em venda de atletas (a de Reinier já superou essa meta, com sobras) e R$ 33 milhões em social, amador e outros.

O atual contrato da TV em relação ao Campeonato Brasileiro já tem suas regras e cotas definidas e vale até 2024. Copa do Brasil e Libertadores também não permitem novas negociações a curto prazo. Talvez por isso, o Flamengo tenha pensado em forçar a mão no Estadual, chegando a pedir, segundo se comenta nos corredores da Gávea, a assombrosa quantia de R$ 100 milhões pelos seus jogos no insignificante estadual do Rio. Por mais que essa tenha sido uma pedida “para começar as negociações”, convenhamos, é surreal.

Fato é que o tiro saiu pela culatra e as vítimas acabaram sendo seus torcedores, ou seja, seus principais clientes – sua razão de ser. Que agora ou vão ao Maracanã (que abriga, no máximo, 60 mil espectadores) ou se contentam em ouvir as partidas pelas ondas de rádio e assistir aos lances nos curtos “melhores momentos” que as TVs recebem, dentro dos três minutos “jornalísticos” a que tem direito em qualquer espetáculo.

Em sua tradicional arrogância, Landim, Bap e Cia. peitaram a TV, mas não conseguiram ganhar nada, e quem ficou a ver navios foi a torcida. No final das contas, a verdade é que os R$ 18 milhões recusados poderiam, pelo menos, ter ajudado a pagar boa parte da indenização dos meninos do Ninho, chaga ainda aberta pela insensibilidade e frieza desses mesmos cartolas.

Menos mal para os rubro-negros que Jorge Jesus e seus craques pouco têm a ver com eles. E tome gol de Gabigol! Pelo rádio.

UOL: Renato Mauricio Prado