Jogos do Flamengo no Carioca fazem o rádio ser redescoberto

Jogos do Flamengo
Santa Cruz não abandona seu rádio há três décadas Foto: Gabriel de Paiva / Gabriel de Paiva

De seus 64 anos, há 30 Antônio Ramos Brandão — o Santa Cruz — não abre mão do radinho de pilha. Seja no Maracanã, seja em frente à televisão (sem som), o Motoradio o acompanha.

— Eu gosto porque ele narra o gol antes da TV — explica o tradicional torcedor do Flamengo e funcionário da loja do clube, na Gávea.

Com o avanço tecnológico dos canais de comunicação, o hábito de ouvir jogos no rádio ficou fadado a um nicho, formado principalmente por pessoas da faixa etária do geraldino. Só que, sem televisionamento, as partidas do Flamengo no Carioca — como a desta segunda, às 20h, contra o Resende, no Maracanã — fizeram ele ser descoberto por uma geração que nasceu com a internet já estabelecida. Aos 16, o carioca Rafael Krapp se encantou com a narração de Luís Penido, da Rádio Globo.

— Passei até a ver na internet os melhores momentos da final da Libertadores com a narração do “Penidão”. Gosto de sentir emoção. Fico até com medo de sair outro gol do River Plate— brinca o rubro-negro.

Krapp pode ser considerado um torcedor à moda antiga. Gosta de colecionar páginas de jornal que retratam vitórias do Flamengo e escuta os jogos num rádio que lembra o de Santa Cruz. Mas seus hábitos “retrô” param por aí. Até 2018, ele mantinha com amigos um canal no YouTube para comentar partidas e outros assuntos relacionados ao clube. O momento de maior sucesso foi a transmissão do foguetório em frente ao hotel do Independiente-ARG na véspera da decisão da Copa Sul-americana de 2017.

— Conseguimos cinco mil acessos naquele dia.

Rafael Krapp gostou de ouvir jogos pelo rádio Foto: Arquivo pessoal

É justamente aí que ocorre o choque geracional. Para os torcedores da idade de Krapp, depender dos comentários de um radialista para formar sua própria opinião sobre a atuação do time é uma experiência que causa estranhamento. Trata-se de uma geração que se acostumou a dar mais importância às imagens do que à narração. Ao mesmo tempo em que assistem, comentam os jogos em aplicativos de mensagem ou em redes sociais.

— Comento bastante no WhatsApp. Mas quando escuto pelo rádio quase nem comento — explica Jiandrigo Oliveira, de 19 anos: — Pela TV, você consegue ter mais certeza do que pode acontecer no jogo, de qual o problema da equipe, onde pode melhorar.

Morador de Florianópolis, Jiandrigo tem escutado os jogos do Flamengo em sua Smart TV — o que diz muito não apenas sobre sua geração, mas também da forma como o próprio rádio se adaptou às novas tecnologias. Está nos celulares, no computador, na televisão e, claro, nos aparelhos portáteis. Segundo a Rádio Globo, a audiência durante as partidas do rubro-negro triplicou em relação ao ano passado em suas mídias digitais (aplicativo e site oficial), formas de acesso que sugerem a adesão do público jovem.

— É muito diferente. Eu tenho um amigo deficiente visual, e a sensação é de que estou passando pela mesma experiência que ele ao acompanhar um jogo — compara Mateus Amaro, de 16 anos, morador de Juiz de Fora-MG.

Reconhecido pelos jovens no Maracanã, Santa Cruz vê com bons olhos a aproximação deste público com o rádio. Mas sabe que, quando a concorrência da TV voltar, a popularidade de seu companheiro de três décadas retornará ao patamar tradicional.

— Eu sou da era do rádio, né? Todo dia escuto as notícias. Eles, não.

Por Rafael Oliveira em Extra

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